Neste 5º Domingo da Páscoa, somos convocados a perscrutar, com reverência, a estatura mística da afirmação de Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade a Vida”. A Liturgia da Palavra, ao abrir-nos a tessitura joanina, convida-nos a uma mística de itinerário: não a mera travessia de circunstâncias históricas, mas a passagem pascal em que Cristo, singular e insuperável mediador (cf. Jo 14,1-12), nos reintroduz na comunhão trinitária. Se o Tempo Pascal é essencialmente mistagógico, este domingo é um marco de aprofundamento: somos conduzidos do assombro diante do túmulo vazio à confiança filial que se atreve a chamar Pai àquele que, no Filho, nos revela seu coração.
A coabitação das leituras ilumina esse arco soteriológico. Em Atos, a Igreja nascente aprende a ordenar carismas e serviços, instituindo os diáconos para que a Palavra não seja eclipsada (At 6,1-7): a diaconia, dimensão ministerial da caridade, recoloca-nos na práxis de um Corpo em que cada membro se oferece para o bem de todos. Em 1 Pedro, o edificar-se como pedras vivas (1Pd 2,4-9) ressoa não como metáfora piedosa, mas como verdade constitutiva: a comunidade é templo, não de matéria inerte, mas de existências lapidadas na Páscoa. A intertextualidade com o Evangelho é patente: o Caminho é caminho eclesial, a Verdade não é conceito abstrato, mas Pessoa viva, e a Vida é caridade derramada, construída em comum.
Não é fortuito que a tradição litúrgica proponha para o Intróito deste domingo a antífona Cantate Domino canticum novum (Sl 98/97), pois o novo cântico não é mera novidade estilística, mas a voz renovada de um povo recriado no Ressuscitado. Não por coincidência é esse o lema de nosso Coro. Ademais, a recepção beneditina dessa dinâmica pascal oferece um prisma precioso. São Bento, homem prático e teólogo do concreto, ordena na Regra uma via: a humilde escola do serviço do Senhor (RB Prólogo), na qual a obediência abre a inteligência do coração, a estabilidade depura os afetos e a conversatio morum configura, dia após dia, a vida ao Cristo. Nesse horizonte, a tríade evangélica – Caminho, Verdade e Vida – deixa-se contemplar como: o Caminho da Regra e do discipulado, percorrido no cadenciamento do Opus Dei; a Verdade procurada na lectio divina, onde a Palavra é norma; e a Vida caritativa da comunidade, na qual cada um suporta e sustém o outro, para que em tudo Deus seja glorificado (ut in omnibus glorificetur Deus; RB 57,9).
A Música Sacra, articulada com a ars celebrandi, não está fora desse itinerário; ela o serve. Nada deve ser anteposto ao Ofício Divino, escreve Bento (RB 43), e, por analogia, na Missa, nada deve sobrepor-se à função própria do canto: tornar audível a fé da Igreja, acolhendo a Palavra, respondendo-lhe, impregnando de beleza o gesto ritual. Por isso, a escolha do repertório procura obediência às antífonas, consonância teológica com as leituras e um estilo nobre que, sem ostentação, favoreça a participação ativa e contemplativa do povo.
Nessa esteira, elegemos a canção Cantai ao Senhor um Cântico Novo, do Monsenhor Jonas Abib, precisamente por sua consonância textual com o Intróito romano. A peça, ao convocar a assembleia à jubilação pascal, encarna a novidade batismal que o Tempo da Páscoa celebra: a voz de um povo renascido. A tessitura melódica acessível, somada a um refrão de clara assemblearidade, permite que a comunidade inteira se una desde o limiar da celebração. A interpretação que propomos sublinha o caráter processional do canto: andamento vivo, porém nobre; apoio harmônico do órgão em registros brilhantes mas não agressivos; alternância entre estrofes em canto responsorial e um bordão coral que sustenta o tecido sonoro, numa discreta referência à prática antifonal beneditina.
A liturgia da Palavra pede um salmo responsorial em verdadeiro idiomático bíblico. Optaremos por uma salmodia em tom salmódico modal, que não eclipse, mas intensifique o texto de louvor: Exultai, ó justos, no Senhor. O Aleluia, coração pascal do anúncio, será cantado com amplitude, favorecendo a proclamação do Evangelho: aqui, o coro atuará como diaconia musical à Palavra, preparando o ouvido e o coração para a afirmação axial do Senhor: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Na homilia, essa sentença certamente será desdobrada; musicalmente, ela encontrará eco no canto da comunhão.
Com efeito, para o momento da comunhão, propomos Eu sou o Caminho, de José Acácio Santana. A escolha é teológica e mística: à mesa eucarística, onde Cristo se nos oferece como Pão vivo, é próprio que ressoe sua autodefinição, não como afirmação externa, mas como alimento de inteligência e vontade. A tessitura contemplativa da obra favorece um recolhimento luminoso: iniciaremos com tessitura mais camerística (vozes em homofonia suave), deixando que o refrão, progressivamente, assuma o protagonismo da mensagem de Cristo. O órgão, aqui, desce a registros mais quentes e fundantes, evocando o claustro que guarda e fecunda o silêncio. O coro, em uma ou duas estrofes, poderá explorar discretas variações contrapontísticas, sem turvar a inteligibilidade do texto, de modo a sugerir que a Verdade é, inesgotavelmente, rica.
O Ofertório, momento de oblação e edificação, pode acolher uma breve peça coral que dialogue com a Liturgia da Palavra. Uma antífona simples que evoque a caridade diaconal dos Atos, recordando que a liturgia nasce da fé e se traduz em serviço. Ainda aqui a inspiração beneditina é pertinente: o labor do coro não é exibicionista; é obra de artesãos, como monges que, na paz dos mosteiros, poliam pedra e pergaminho. O canto é talhado como quem lapida: não para si, mas para que a luz atravesse o vitral e alcance os que nela se aquecem.
No horizonte da Regra, o Caminho é disciplina que liberta. A Verdade é escutada, não inventada. A Vida é caridade comprovada. O claustro, com seu deambulatória circular, ensina que todo caminhar volta à fonte; a biblioteca e o scriptorium indicam que a verdade se acolhe pela escuta; o refeitório e a enfermaria lembram que a vida se reparte. Assim, também, nossa celebração: a procissão inicial é Caminho; a liturgia da Palavra, Verdade; a comunhão, Vida. O coro, qual humilde schola, verte a tradição em som e silêncio, sustentando a assembleia de forma discreta e devocional.
O Coro São Bento, cônscio de sua missão, deseja que o povo cante um cântico novo. Novo, porque renascido; novo, porque pascal; novo, porque a cada Eucaristia, a Páscoa se atualiza. Que, nutridos pelo Cordeiro, possamos sair como pedras vivas, servidores diligentes, discípulos que caminham na luz da Verdade, respirando a Vida que não perece.
Então, nosso canto, como incenso, subirá manso, e nossa cidade, tão necessitada de paz, ouvirá, ainda que de longe, o eco de um claustro invisível: Pax. Que tudo se ordene para a glória de Deus, e que o Cristo, Caminho, Verdade e Vida, encontre em nós uma morada cantável. Amém.
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Maestro Marcelo Henrique de Carvalho



