Neste próximo dia 10 de maio, estaremos diante do 6º Domingo do Tempo da Páscoa, com jubilosa proclamação do Intróito Romano: “A todos proclamai com alegria: o Senhor libertou o seu povo. Não se trata de um entusiasmo epidérmico, mas de uma convicção teologal arraigada na pedagogia da Igreja que, à beira da Ascensão, prepara-nos para a efusão do Espírito”. A antífona Vocem Iucunditatis, matriz textual desta máxima, é síntese de uma hermenêutica pascal: o Êxodo definitivo, consumado na Páscoa de Cristo, é agora comunicado ao seu Corpo, que, habitado pelo Paráclito, é enviado a anunciar até os confins da terra a libertação recebida.
A Liturgia da Palavra, nas variantes dos três anos, compõe um tríptico soteriológico. Em Atos, vemos o Evangelho transbordar fronteiras (Samaria, a casa de Cornélio, a reconciliação de Jerusalém), atestando que a libertação não é privilégio étnico, mas dom católico. Nas epístolas, aprendemos a dar razão da esperança com mansidão, a permanecer no amor que vence o medo, a discernir a novidade do Espírito que ensina e recorda. No Evangelho joanino, Cristo promete o Consolador, ou ordena o mandamento novo, ou ancora os corações na paz que o mundo não pode dar. Tudo converge: libertos pelo Ressuscitado, somos introduzidos na liberdade dos filhos, que não consiste em autossuficiência, mas em docilidade amorosa. A anamnese pascal, assim, torna-se missão: não guardamos um troféu, proclamamos um acontecimento vivo.
É precisamente aqui que a espiritualidade beneditina se revela uma escola de liberdade. Paradoxo apenas aparente: Bento concebe a Regra como uma humilde escola do serviço do Senhor (RB, Prólogo), onde a obediência, a estabilidade e a conversatio morum não acorrentam, mas libertam o coração do tirânico império do ego. A verdadeira libertas nasce da escuta que, modulada pelo silêncio (RB 6) e pela discrição (RB 64), habilita o monge a caminhar na vontade de Deus. No claustro, a Páscoa quotidiana plasma um sujeito pacificado, capaz de proclamar com vida e lábios que o Senhor libertou o seu povo. Nada se anteponha, pois, à obra de Deus (RB 43): a liturgia é o espaço por excelência onde a liberdade recebida se faz louvor, e onde o louvor converte-se em caridade operosa.
Com esta inteligência litúrgico-teológica, delineamos o repertório, visando obediência às antífonas, consonância com as leituras e forma musical de nobre sobriedade, que favoreça a actuosa participatio e o saborear contemplativo do mistério.
Para o Canto de Entrada, escolhemos A todos proclamai com alegria, do Pe. José Weber. A peça, concebida em direta alusão ao Intróito, oferece o arcabouço textual exato da proclamação e a energia missionária própria deste domingo. A condução melódica, declarativa e expansiva, sustenta a assembleia no gesto processional, enquanto o coro, em alternância antifonal, sublinha os membros da sentença, proclamar, alegria, libertação, povo, como se desenhasse sonoramente a geografia espiritual da missão. O órgão, em registros refulgentes porém comedidos, serve de pórtico sonoro; propomos um andamento vivo, sem precipitação, com clara articulação das consoantes, para que a Palavra seja não apenas cantada, mas inteligida. Esta práxis memorializa, a seu modo, a tradição dos mosteiros: o anúncio nasce do coro que escutou, na noite, o cântico novo do Ressuscitado, e agora o derrama sobre a assembleia dominical.
Na Liturgia da Palavra, o Salmo Responsorial encontrará expressão em tom modal, preservando o idiomatismo bíblico da salmodia. O Aleluia, coração pascal do rito da Palavra, será dimensionado como epíclese musical: amplitude suficiente para dilatar o coração, sobriedade para não ofuscar a leitura. Aqui, o Coro São Bento exerce sua diaconia musical à Palavra: preparar um espaço de escuta no qual o Espírito, o verdadeiro Libertador interior, escreva a Lei no coração.
Para o Ofertório, propomos Neste Altar da União, de Frei Wanderson Luiz Freitas. O texto e sua teologia ritual convergem com este domingo que antecipa a unidade operada pelo Espírito: no altar, o múltiplo é reconciliado, as diferenças se tornam polifonia, e a oblação comum reforma a cidade na caridade. A peça, de caráter lírico e orante, favorece a passagem do ouvir ao oferecer: mãos que trazem pão e vinho, vozes que se oferecem com eles. Musicalmente, sugerimos uma primeira estrofe em textura homofônica, para consolidar a participação da assembleia, seguida de um tratamento coral mais elaborado, que evoque o labor monástico: como monges que, no scriptorium, tecem linhas que se iluminam reciprocamente, assim as vozes se doam e se escutam. A conexão beneditina é, aqui, direta: o altar prolonga o refeitório onde se lê e se serve, e a união celebrada torna-se virtude vivida (RB 72: o bom zelo, que os monges pratiquem com amor fervoroso).
Na Comunhão, entoaremos Quem nos separará, de Valmir Neves Silva, cuja matriz paulina (Rm 8) ressoa como selo do tema da libertação. O povo que comunga é o povo libertado do medo, do pecado e da morte, enxertado no Cristo cuja caridade é invencível. A obra, meditativa e mendicante, favorece a interiorização: um refrão que toda a assembleia assume com facilidade, intercalado por estrofes que o coro canta em dinâmica contida, de maneira a permitir o recolhimento orante. A interpretação buscará um arco que vá do sussurro confiante ao testemunho sereno, sem jamais ceder à histrionia. O órgão desce a tessituras cálidas, sustentando a respiração comunitária. Teologicamente, a comunhão torna atual a fórmula: Aquele que nos liberta é o mesmo que, em nós, ama e permanece. Em chave beneditina, esta permanência é o húmus da estabilidade: permanecer em Cristo para, nele, permanecer no irmão.
Em tudo isso, não se trata de montar uma vitrine musical, mas de exercer um ministério. A ars celebrandi do coro é uma ars servandi: guardar o texto, custodiar o silêncio, sustentar a assembleia, ornar sem recobrir. É o ofício do arcobotante: invisível a muitos, indispensável a todos. O Coro São Bento deseja cantar como quem reza e rezar como quem ama, de modo que a forma sonora do rito seja transparente à Forma Christi. Por isso evocamos, uma vez mais, a Regra que nos educa: ut in omnibus glorificetur Deus (RB 57,9). Que cada escolha seja oferenda e serviço.
A Paróquia São Bento do Morumbi, imersa no ritmo trepidante de nossa metrópole, torna-se, neste domingo, uma pequena abadia pascal. O claustro é o espaço simbólico do coração unificado, onde a cidade encontra refúgio e o mundo é amado com amor ordenado. Ao proclamar que o Senhor libertou o seu povo, não negamos as cadeias ainda ativas; confessamos, antes, a primazia de uma libertação já inaugurada e eficaz, que nos impele a obras de justiça, reconciliação e paz. É tarefa própria dos monges e de quem com eles caminha: tornar a alegria pascal habitável, torná-la cultura, música, hospitalidade (RB 53), trabalho digno, oração perseverante.
Que esta Santa Missa, do Introito jubiloso à comunhão confiada, passando pelo ofertório de nossa unidade, nos configure como pedras vivas de um templo de louvor. Libertados para amar, enviados para servir, possamos, com lábios e vida, anunciar até os confins desta cidade que a Páscoa é evento e permanência, dom e tarefa. E que, sob a benéfica sombra de São Bento, aprendamos a liberdade dos que se deixam conduzir: a única capaz de gerar cânticos novos, obras novas, um coração novo.
Maestro Marcelo Henrique de Carvalho



